Ninguém é perfeito

Por Danuza Leão
Você é como certas pessoas bem resolvidas, que nunca se arrependeram de nada do que fizeram na vida - e que, se fosse para recomeçar, fariam tudo de novo, igualzinho? Pois eu me arrependo de tanta coisa que nem te falo.
Começaria logo cedo: no lugar de passar minha adolescência de manhã na praia e à noite nas festinhas, poderia ter estudado mais inglês e também ter me interessado mais por história. Se tivesse, compreenderia melhor o mundo em que vivemos e que às vezes é tão difícil de entender. Eu me interessei por história, sim, mas por histórias românticas, que me emocionaram na hora em que estavam sendo lidas e me fizeram sonhar, mas delas agora pouco me lembro. E os grandes clássicos, o que é que eu estava fazendo quando não os li, todos? Uma pena, porque os que li me deram prazeres inesquecíveis. Aliás, não é que eu tenha tido só arrependimentos. Mas do que gostaria mesmo é de passar uma borracha sobre tanta coisa que fiz e, aí, fazer tudo diferente. Tenho certeza de que minha vida poderia ter sido mais útil, mais séria, sei lá.
Todo o tempo que perdi com amores que nem amores eram - isso, sim, é de uma arrependimento profundo. Cada hora e cada minuto que passei pensando nem me lembro bem em quem (e, quando tento, não consigo mesmo lembrar) me dão vontade de chorar, só de ver o tempo perdido. A culpa não era deles, claro que não, mas minha, que me empolgava com facilidade e algumas vezes achava que estava apaixonada. Aliás, apaixonada, não: profundamente apaixonada. Teria sido um problema da juventude? Será que alguém teve juízo a vida inteira, desde jovem? Pode ser, mas eu nunca conheci ninguém assim.
 
E mais tarde, quando tive meus filhos? Nenhuma mãe se acha perfeita, e todas se roem em culpas achando que deveriam (e poderiam) ter sido melhores mães; no mínimo, perfeitas. Por que eu fui ao cinema ver um filme idiota no lugar de ficar duas horas com minha filha, duas horas que jamais voltarão? E as vezes em que fiz uma viagem, perdendo esse tempo precioso em que poderia estar vendo meu filho aprender a pensar, a viver. Duvido que alguma mãe tenha acompanhado tão de perto assim o crescimento de seus filhos, mas vamos ser sinceras: nenhuma mulher entre 20 e 40 abre mão com facilidade desses anos maravilhosos, que também nunca vão voltar, devotada só à família, ao marido e aos filhos. E ela está certa? Não. É assim? É.
 
Mas, pensando bem, ninguém é perfeito. Mesmo quem chega muito perto da perfeição vai sempre encontrar alguém para apontar um defeito seu, porque o mundo é assim mesmo. E, pensando melhor ainda, existem coisas de que a gente até se arrepende, mas que, na hora, foram boas demais. Ah, como aquilo foi bom.
 
Afinal, foi entre esses erros e acertos que a pessoa chegou ao que é hoje; irresponsável, madura, boa, mas às vezes beirando a maldade, alegre, triste, elegante, despojada, bela em algumas ocasiões e feia em outras, séria, debochada. Cada uma dessas coisas no momento certo - e também tudo misturado - faz com que ela seja muito interessante, bem mais do que se fosse perfeita.
 
Então, vamos parar com as culpas, tá? Isso é coisa do século 20.

 

(texto publicado na revista Claudia nº 7 - ano 53 - julho de 2014)

Mais que 100 dias de gratidão


“Troque um pensamento crítico por um pensamento de gratidão”
Por Vivyanne Farias


Era para ser uma provocação ou um aforismo desses que guardamos no bolso, mas a mensagem penetrou como uma lança e partir dela iniciei uma nova jornada. Pesquisas acadêmicas sobre gratidão e termos correlatos não supriram a curiosidade e a vida queira mais.

Nos quatro cantos do mundo, encontramos  aventuras de pessoas que passam a agradecer com afinco e algumas registram as experiências. Ao visualizar os relatos, embarquei no desafio de registar durante 100 dias algo a agradecer. Todos os motivos valiam e seriam bem-vindos, melhor então se cada dia fosse um novo. Marquei o despertador para 22h (por via das dúvidas a tecnologia pode funcionar como gatilho) e providenciei um caderninho à moda antiga. Cada dia um motivo diferente e a jornada começou.

A rotina passou a ter um novo sabor. Gratidão óbvia e não menos sentida, foi uma delícia agradecer pela vida, pela família, pelo marido, pelo trabalho, pelo alimento do dia... Até que acabaram os motivos óbvios. A essa altura o hábito já estava instalado e quando soavam as 22 badaladas lá estávamos com o caderninho em punhos buscando razões a agradecer. Passamos a enxergar as vivências improváveis, as transformações, os erros e as aparentes banalidades com outro olhar. Seriam aqueles motivos a agradecer? A experiência cutucou por dentro e quem estava por perto participava também da descoberta. "Vamos agradecer pelo quê?"

Sim, agradecer tornou-se a forma contagiante e singela de alegrar-se com pequenas porções que a vida oferta e aceitar que algumas dessas porções são amargas, mas nos ajudam a crescer. Suavemente, as emoções que incomodavam ficaram mais brandas e a importância de cada dia cresceu.

Testemunhar a delícia e o poder restaurador desse novo hábito foram o maior presente que recebi nos últimos tempos. Poucas experiências aqueceram os dias como esta. Bem mais que reduzir as críticas, a vida tem se tornado mais simples e alegre. Imersa de aceitação, muitas críticas e julgamentos ficaram para trás. Já passam e muito dos 100 dias e nosso coração continua aquecido em busca de motivos a agradecer.

Ano Novo: é tempo de plantar


Tolerância e Aceitação


“Tolerar a existência do Outro e permitir que ele seja diferente ainda é muito pouco. Quando se tolera, apenas se concede e essa relação não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o Outro”.